Série A
Atenção: utilize o resultado de outros exercícios da Série A.
Tem um teorema que diz que, em $\mathbb{R}^n$, todas as normas são equivalentes. Utilizando esse resultado, mostre que toda transformação linear
$$
T: \mathbb{R}^p \rightarrow \mathbb{R}^q
$$
é contínua.
Dica: $\vec{v} \mapsto \|T\vec{v}\|$ é uma seminorma! Tem esse exercício na lista! :-)
Dica 2: O que significa dizer que normas são equivalentes, pra você?
Linked from:
- Caio Tomás de Paula @CaioTomas
Usando o fato de que todas as normas em $\mathbb{R}^n$ são equivalentes, tomemos a norma euclideana $|\cdot|$ em ambos $\mathbb{R}^p$ e $\mathbb{R}^q$. Da linearidade de $T$, sabemos que existe $k\in\mathbb{R}$ tal que
$$
|T(x)|\leq k|x|, \forall x\in\mathbb{R}^p.
$$ Sejam $a\in\mathbb{R}^p$ e $\varepsilon > 0$. Tome $\delta = \varepsilon/k$ e suponha que $|x-a| < \delta$. Nesse caso, como $T$ é linear, temos
$$
|T(x) - T(a)| = |T(x-a)| \leq k|x-a| < k\delta = \varepsilon.
$$ Logo, como $a$ foi tomado arbitrariamente, temos $T$ contínua em $\mathbb{R}^p$.- AAndré Caldas @andrecaldas
Como você sabe da existência desse $k$?
- CCésar Augusto Rubim @cesar_rubim
Não podemos assumir que toda transformação linear em espaços de dimensão finita é limitada (contínua)? hehehehe
- Em resposta aCaioTomas⬆:AAyrton Teixeira @AyrtonAnjos
Acredito que posso fazer a seguite contribuição a resposta do Caio.
Como mostrar que existe $k\in \mathbb{R}$ tal que
$$|T(x)|\leq k|x|, \forall x\in\mathbb{R}^p?$$
Seja $e_1,\dots,e_p$ uma base para $\mathbb{R}^p$. Tome $Q$ como o máximo dos valores $|T(e_1)|,\dots,|T(e_p)|$, daí escrevendo $x=x_1e_1+\cdots+x_pe_p$ temos
\begin{align*}
|T(x)|=|T(x_1e_1+\cdots+x_pe_p)|=& |x_1T(e_1)+\cdots+x_pT(e_p)|\leqslant |x_1T(e_1)|+\cdots+|x_pT(e_p)|,
\end{align*}
onde utilizamos que $T$ é linear e a desigualdade triangular. Como $$|x_1T(e_1)|+\cdots+|x_pT(e_p)|=|x_1||T(e_1)|+\cdots+|x_pT||(e_p)|$$
e cada $|T(e_i)|\leqslant Q$, obtemos que
$$|T(x)|\leqslant Q(|x_1|+\cdots+|x_p|).$$Aqui usaremos o fato que a norma euclidiana $|\cdot|$ é equivalente a norma da soma $|\cdot|_S$, assim, existe $C\in\mathbb{R}$ tal que
$$|x_1|+\cdots |x_p|=|x|_S\leqslant C|x|.$$ Logo, unindo essas desigualdades obtemos:
$$|T(x)|\leqslant QC|x|$$ e basta tomar $k=QC$.Caio Tomás de Paula @CaioTomas
Boa! Dei uma editada leve ;-)
Gostei do argumento!- Em resposta aAyrtonAnjos⬆:AAndré Caldas @andrecaldas
Estou adorando a discussão de vocês!!!
Você demonstrou que existe um tal $k$ para qual norma?
Caio Tomás de Paula @CaioTomas
Para a norma eucildeana.
- AAndré Caldas @andrecaldas
Ele mostrou pra qualquer norma, mas por algum motivo ele mencionou a euclideana.
Ele mostrou que existe o tal $k$ para a norma da soma. E como a euclideana é equivalente, vale pra euclideana.
Se ele tivesse dito "todas são equivalentes", tinha demonstrado pra todas. :-)
- Em resposta aandrecaldas⬆:AAyrton Teixeira @AyrtonAnjos
Mostrei para as normas euclidianas em $\mathbb{R}^p$ e $\mathbb{R}^q$. Mas se $|\cdot|_1$ e $|\cdot|_2$ são outras normas de $\mathbb{R}^p$ e $\mathbb{R}^q$, respectivamente, então a equivalência entre normas nos espaços $\mathbb{R}^n$ garante que existem $A>0$ e $B>0$ tais que $A|T(x)|_2\leqslant |T(x)|$ e $|x|\leqslant B|x|_1$. Daí utilizando o que mostramos obtemos que
$$A|T(x)|_2\leqslant |T(x)|\leqslant k|x|\leqslant kB|x|_1$$
Logo
$$|T(x)|_2\leqslant D|x|_1$$
Ou seja, a existência de um $k$ satisfazendo o desejado existe para qualquer par de normas tomado em $\mathbb{R}^p$ e $\mathbb{R}^q$.Obs: provavelmente teria sido bom eu denotar de formas diferentes as normas euclidianas em $\mathbb{R}^p$ e $\mathbb{R}^q$, então vou pedir que fique subentendido que quando escrevo $|T(x)|$ é a norma euclidiana de $\mathbb{R}^q$ e $|x|$ a norma euclidiana de $\mathbb{R}^p$.
- Em resposta aCaioTomas⬆:AAndré Caldas @andrecaldas
E onde você usou o teorema?
Caio Tomás de Paula @CaioTomas
Usei o teorema para escolher usar as normas euclideanas
- AAndré Caldas @andrecaldas
Equivalente quer dizer que você pode trocar uma pela outra sempre que quiser? :-)
- REm resposta aandrecaldas⬆:Rodolfo Ferreira de Oliveira @rodolfo_edp
Seja $T:\mathbb{R}^p \to \mathbb{R}^q$ uma aplicação linear. Seja $\{e_1,..,e_p\}$ a base canônica de $\mathbb{R}^p$. Dado $v\in \mathbb{R}^p$, existem únicos $v_1,...,v_p \in \mathbb{R}$ tais que:
$$
v=\sum_{i=1}^{p}v_ie_i
$$
Daí, pela linearidade de $T$:
$$
T(v)=\sum_{i=1}^{p}v_iT(e_i)
$$
Das propriedades de norma, segue que:
$$
||T(v)||_q \le \sum_{i=1}^{p}|v_i|||T(e_i)||_q
$$
Seja $M= \max_{1\le i\le p} ||T(e_i)||_q$. Daí:
$$
||T(v)||_q \le M\sum_{i=1}^{p}|v_i|
$$
Mas a norma a soma é:
$$
||v||_1=\sum_{i=1}^{p}|v_i|
$$
Assim, da equivalência das normas em $\mathbb{R}^p$, segue que existe $C>0$, tal que:
$$
||v||_1\le C||v||_p
$$
Daí, definindo $c=MC$, temos
$$
||T(v)||_q \le c||v||_p
$$
Com isso, tomando $v=x-y$, temos que:
$$
||T(x)-T(y)||_q\le c||x-y||_p, \forall x,y \in \mathbb{R}^p
$$
Logo, $T$ é Lipschitziana e em particular é contínua.- AAndré Caldas @andrecaldas
Coloquei uma dica que vai fazer você dizer...
- Nossa!
- RRodolfo Ferreira de Oliveira @rodolfo_edp
kkkk caraca, não tinha pensado por esse caminho
- AAndré Caldas @andrecaldas
Na seminorma $|\vec{v}| = \|T\vec{v}\|$, as bolas são $T^{-1}(B_\varepsilon(\vec{0}))$.
Então dá pra ir e voltar com o exercício das vizinhanças.
- REm resposta aandrecaldas⬆:Rodolfo Ferreira de Oliveira @rodolfo_edp
Outra solução:
A aplicação $v\mapsto||T(v)||_q$ é uma seminorma em $\mathbb{R}^p$. Como visto no exercício
https://topologia.talkyard.net/-58/equivalencia-de-normas-seminormas
qualquer bola centrada na origem $\vec{0}\in \mathbb{R}^p$ com relação a seminorma é uma vizinhança da origem com relação a norma usual. Além disso, pela maneira que fora definida a seminorma, vale que:
$$
\mathcal{B}_{|\cdot|}(\vec{0})=\{T^{-1}(B_r(\vec{0})):r>0\}
$$
Assim, imagem inversa de aberto por $T$ é aberto (lembre que as bolas formam uma base para a topologia do espaço euclidiano) e portanto $T$ é contínuo.- AAndré Caldas @andrecaldas
Fazendo $|\vec{v}| = \|T\vec{v}\|_q$, definimos uma seminorma (eu deveria ter colocado esse exercício em algum lugar, assim dava pra você usá-lo sem precisar demonstrar... não vou demonstrar, não! :-P).
Perceba que $\mathcal{B}_{|\cdot|}(\vec{v}) = T^{-1}(\mathcal{B}_{\|\cdot\|_q}(\vec{v}))$. De fato,
$$
B^{|\cdot|}_\varepsilon(\vec{v})
=
T^{-1}(B_\varepsilon(T\vec{v})).
$$
(é um pouco trapassa... eu posso pular partes da demonstração o tanto que eu quiser... porque quem reclama sou eu mesmo!)Isso implica que $T^{-1}(\mathcal{V}_{\|\cdot\|_q}(\vec{v})) \subset \mathcal{V}_{|\cdot|}(\vec{v})$. (resumi de novo... :-/)
Pelo exercício de seminormas,
$$
T^{-1}(\mathcal{V}_{\|\cdot\|_q}(\vec{v}))
\subset
\mathcal{V}_{|\cdot|}(\vec{v})
\
\subset
\mathcal{V}_{\|\cdot\|_p}(\vec{v}).
$$
Ou seja, $T$ é contínua em $\vec{v}$. ;-) - Em resposta arodolfo_edp⬆:AAndré Caldas @andrecaldas
Muito bom... eu não queria usar bases, porque não tenho certeza se já falei de continuidade com bases.
- AEm resposta aandrecaldas⬆:Ayrton Teixeira @AyrtonAnjos
Talvez uma outra contribuição interessante para essa questão é um exemplo de transformação linear descontínua.
Aqui vimos que transformações lineares entre espaços euclidianos são contínuas, com um argumento análogo é possível mostrar que transformações lineares entre espaços vetoriais normados de dimensão finita são contínuas, assim precisamos "procurar" em espaços de dimensão infinita.Vou dar o exemplo (com mais detalhes) que vi no livro do Elon de espaços métricos.
Seja $E$ o espaço real dos polinômios $p:\mathbb{R}\mapsto \mathbb{R}$ e tome em $E$ a norma $|\cdot|$ dada por $|p|=sup\{|p(x)|\mid 0\leqslant x\leqslant 1 \} $. Note que $|\cdot|$ é de fato uma norma, pois para quaisquer $p,q\in E$ e $\lambda\in\mathbb{R}$ temos:
- Se $p\neq 0$, então $|p|\geqslant 0$, pois existe $x_0\in[0,1]$ tal que $p(x_0)\neq 0$, já que $p(x)$ tem um número finito de raízes.
- $|\lambda p|=|\lambda||p|$ e $|p+q|\leqslant |p|+|q|$ seguem de propriedades do sup.
Daí defina $f:E\mapsto \mathbb{R}$ por $f(p)=p(2)$. Temos que $f$ é uma transformação linear, pois para quaisquer $p,q\in E$ e $\lambda\in\mathbb{R}$ vale que:
- $f(p+q)=(p+q)(2)=p(2)+q(2)=f(p)+q(p).$
- $f(\lambda p)=(\lambda p)(2)=\lambda(p(2))=\lambda f(p).$
Afirmamos que $f$ é descontínua no polinômio nulo. De fato, defina a sequência $(p_n(x))$ onde $p_n(x)=(x/2)^n$. Essa sequência converge para o polinômio nulo, pois dado $\varepsilon>0$ podemos tomar $n$ tal que
$$|p_n-0|=|p_n|=(1/2)^n<\varepsilon.$$
Por outro lado
$$|f(p_n)|=|p_n(2)|=1.$$
Logo $(f(p_n))$ não converge para $f(0)=0$ e portanto $f$ não é contínua no polinômio nulo, como queríamos.- AAndré Caldas @andrecaldas
Interessante!
Acho que, na hora de tirar o supremo, restringindo a qualquer conjunto limitado e infinito, você consegue uma norma!!! Demonstração?Calcular num ponto é sempre linear... então, se você pegar um ponto "longe" desse conjunto, deve ser descontínua. Eu acho... o que você acha?
- AAyrton Teixeira @AyrtonAnjos
Acho que sim, se $X$ é limitado então qualquer polinômio $p(x)$ é limitado superiormente nesse conjunto, pois caso contrário poderíamos contruir uma sequência $p(x_n)$ tal que $|p(x_n)|\geqslant n$, logo, qualquer subsequência dessa sequência diverge. Agora tomando uma "sequência de pré-imagens" $(x_n)$ obtemos uma sequência limitada, ou seja, possui uma subsequência $(x_{n_{k}})$ convergente, absurdo pois como polinômios são contínuos teríamos que a subsequência $p(x_{n_{k}})$ converge. Assim, fica bem definido $ |p|=sup\{|p(x)|\mid x\in X \} $.
As condições em 2 continuam seguindo das propriedades do sup. A condição 1 vale por um motivo análogo, por $X$ ser infinito então qualquer polinômio não-nulo precisa assumir um valor diferente de $0$ em $X$.
Sobre a descontinuidade pensei em tomar $A=supX$ e definir $f(p)=p(A+1)$. A sequência $(p_n(x))$ pode ser tomada como $p_n(x)=(x/(A+1))^n$. Nesse caso ainda temos:
$$|p_n-0|=|p_n|=(A/(A+1))^n<\varepsilon$$
para todo $\varepsilon>0$ tomando $n$ grande o suficiente.
Além disso:
$$|f(p_n)|=p_n(A+1)=1$$
E da mesma forma a sequência $(f(p_n))$ não converge para $f(0)=0$.- AAndré Caldas @andrecaldas
Tem que botar a barra duas vezes
\\{
e\\}
, porque o fórum usa o\
como caractere especial. - Em resposta aAyrtonAnjos⬆:AAndré Caldas @andrecaldas
Acho que é por aí... :-)